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Roberto Farias e Remo Usai conversam sobre o filme "O Assalto Ao Trem Pagador"

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cartaz assalto ao trem pagador                                           

 

A música de um clássico

                Em 1962 um filme brasileiro em preto e branco causou furor na cidade, batendo todos os recordes de público: O assalto ao trem pagador, de Roberto Farias. Considerado hoje um clássico do cinema brasileiro, ele foi inovador em diversos aspectos, dentre eles a música. A trilha sonora composta por Remo Usai foi inovadora em forma e conteúdo, sendo a primeira a unir orquestra sinfônica e bateria de escola de samba.

                A MBr reuniu o diretor Roberto Farias e o compositor Remo Usai para um bate-papo em torno dessa parceria histórica. Sergio Saraceni e Tim Rescala tiveram o privilégio de participar desta conversa e saber como foi o processo de trabalho para a criação da música deste grande filme.

                Remo foi apresentado a Roberto Farias por Herbert Richards, de quem ele era o maestro oficial. E esta escolha não foi feita à toa, pois Remo havia voltado alguns anos antes dos Estados Unidos, onde estudou com Miklós Rózsa, um dos grandes compositores de Hollywood (Ben-Hur, Quo Vadis, O ladrão de Bagdá, etc). Sua intenção, inclusive, era retornar logo aos EUA, onde já havia começado a trabalhar com música para cinema, mas os diretores brasileiros foram mais ágeis e conseguiram mantê-lo aqui. Foi assim que começou uma carreira vitoriosa de compositor de trilhas para cinema com 122 filmes, sendo 86 longas, dentre eles O assalto ao trem pagador.

                Roberto Farias nos conta como foi seu primeiro contato com o maestro:

                - A gente não teve muita dificuldade de se entender porque o cinema naquela época era um pouquinho diferente de hoje. Eu acho até que mais profissional. Hoje a gente tem mais tecnologia, tem mais recursos, tem mais uma série de coisas, mas eu não vejo a música do cinema ser feita como antigamente.

                Nós pusemos o filme na moviola e fomos assistindo pedaço por pedaço. Então eu dizia assim: Remo, aqui começa a música nº 1. A gente marcava na cópia e a gente ia marcando o tempo dessa música. Aqui nesse ponto tem uma variação da música para frisar esse momento especial da cena. Aqui termina a música. Então essa música tem, digamos,15 segundos, tem uma variação aos 12 segundos e termina aos 15.O que é essa música ? É uma música de tensão, onde o Tião Medonho levanta da cadeira e vai botar o revólver na cara do amigo dele. Isso tudo assistindo juntos. O Remo ia absorvendo, não só a mensagem que eu dava, como a interpretação de quem fez o filme, como a sensibilidade dele direcionada para a cena que ele estava vendo. Normalmente a gente concordava sem nenhum problema porque a cena já estava dizendo exatamente aquilo que eu estava querendo que ela dissesse.

                 Saraceni e Tim concordam que, infelizmente, que isso é raro hoje em dia. E Remo nos dá mais detalhes:

                - Adaptou-se muita coisa à medida que se ia montando o filme, mas não havia dificuldade, pois o Roberto sabia o que queria. Então fomos mudando, aproveitando ritmos. Aliás, outro dia fizeram um concerto e falaram que era a primeira vez no Brasil que se fazia escola de samba com orquestra. Nós fizemos isso em 1962, há 40, 50 anos já. Para nós não era problema. A criatividade é que eu acho que era maior do que agora.

                 Assim como todas as partituras de Remo, a de O assalto ao trem pagador (foto) , que foi apresentada pela primeira vez em concerto no dia 30 de 2009, foi escrita à lapis e raramente apresenta  indecisões ou correções. Tanto o maestro, quanto o diretor, sabiam muito bem o que queriam.

                O envolvimento de Roberto com a música do filme era direto e constante, acompanhando as gravações e checando a duração de cada música, como ele nos conta:

                - A questão da música sempre foi pra mim uma coisa fundamental. Às vezes uma música de 30 segundos tinha inúmeras variações. Era a mesma música, mas variada, inclusive na natureza dela mesma. Isso era um problema do maestro. Ele é que tinha que resolver esta questão.

                Às vezes ela vinha alegre, de repente ficava triste, ficava agitada, ficava lenta, morna, romântica, e era a mesma música e com variações precisas. Então na hora de gravar, por exemplo, eu gravava, e ele também, com o cronômetro na mão. Vocês sabem que o cinema anda a 24 quadros por Segundo. Se você errar meio segundo, você está fora de sincronismo em 12 quadros. E isso é um absurdo. Se você pensar que com 4 fotogramas fora de sincronismo o público já está vendo… A pessoa fala e a voz não sai. Então, além desta técnica de dizer o que cada um quer e do maestro acompanhar, tinha também que gravar naquele tempo absolutamente certo, correto.

                O tempo, as durações e o ritmo eram fundamentais também para Remo:

- A base do meu trabalho é o ritmo. Se você não tem conhecimento do ritmo de um filme você não faz a música certa. Cada estilo de cinema tem seu ritmo próprio. Mas é preciso sentir o filme antes de se fazer a música.

                Após assistir o filme montado, Remo levou um mês para escrever a música e uma semana para gravá-la. Roberto conheceu as músicas no momento da gravação e não desaprovou nada do que foi composto, como ele nos conta:

- O entendimento que eu e o Remo tivemos chegou a nos levar a concordar que silêncio também é música. A música do Remo “vestiu” O assalto ao trem pagador como uma precisão fantástica e contribuiu muito para dar a personalidade que o filme tem como um todo. A boa música feita para um filme você não percebe, pois ela está de tal forma integrada que é o próprio filme. Mas isso mudou porque chegou um ponto que o cinema brasileiro não teve condições de segurar essa barra. As pessoas perderam essa cultura profissional. Mas onde tem recursos é assim que se faz.

                A valorização da música original num filme marcou a carreira de Remo desde seu início, principalmente com o uso de orquestra sinfônica.

- Eu comecei em 58 com o filme Pega Ladrão e já era assim.

                Segundo Roberto, o nível de profissionalismo de parte a parte contribuiu para isso, o que podemos facilmente comprovar pela qualidade do que é exibido na tela. Na época em que foi lançado o cinema brasileiro estava num impasse, pois a TV já conquistava os espectadores do cinema e as produções das chanchadas já estavam em declínio. O assalto ao trem pagador chegou realmente para ajudar a mudar o curso da história do cinema brasileiro e também da música feita para ele.

                O filme, que na ocasião de seu lançamento no Rio atingiu a marca 368 mil espectadores em uma semana, foi lançado em DVD pelo CTAV (Centro Técnico de Audiovisual) e costuma ser exibido no Canal Brasil.

 

partitura remo usai

partitura remo usai

Partituras originais de Remo Usai para o filme.

29 de Março de 2011, às 18:54
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